Ser autarca
Pedro Vidal
Começo por uma simples frase: Ser autarca é ser muita coisa! Um autarca de hoje é um chefe de família, um gestor, um psicólogo, um engenheiro, um padre, um confidente, um homem de contactos, etc, etc, etc... Um autarca, um bom autarca, tem como função principal agregar a sua comunidade. Um autarca é alguém que sabe partilhar momentos de festa mas também é alguém que está sempre disponível nas horas de maior dificuldade. Um autarca não tem horários para sonhar o futuro. Um autarca não deve ser alguém que tenha "atitudes paternalistas" do tipo daquelas que permitam o abuso de confiança de amigos ou de familiares, daqueles que normalmente vêm com pedidos de favores ou segundas intenções. Um autarca é alguém que anda diariamente com olhos de ver e que tem ouvidos atentos para escutar a população e a oposição. Por tudo isto não é nada fácil ser autarca... Ser autarca é mais do que uma profissão, é uma missão! É aquilo que eu chamo de um postulado! É uma vocação tal como a dos médicos que não largam os seus doentes dia e noite. O autarca actual presta mais de 300 serviços às suas comunidades. Acredito que só é autarca quem tem vocação. Só é autarca quem tem resistência suficiente para um trabalho que é extremamente árduo mas honroso, um trabalho que é muito duro sobretudo se for para ser bem feito. A política de um autarca nada tem a ver com a concorrência empresarial ou com a disputa comercial dos mercados e, por isso, nós, os autarcas não devemos cair na tentação de fazer da política um produto de marketing. A autarquia não é uma instituição burocrática ou administrativa, é algo que transcende a política. Se recuarmos ao passado o Ocidente e a Europa, a partir dos anos 70, tivemos uma espécie de crise de abundância, produção agrícola a mais, produção industrial a mais. A distribuição teve que ser feita. Nesta altura surgiram os créditos às pessoas. O sistema esgotou-se e agora é necessário um novo modelo de distribuição da produção, apesar de haver ainda uma certa "crise de abundância". Nós, os autarcas, temos aqui uma palavra importante a dizer e os nossos contributos são fundamentais. É necessário repensar a economia, a política e a própria organização social. Devemos pensar onde deve ser gasto o dinheiro que é de todos, onde investir o dinheiro que é de todos e quais as melhores estratégias para o desenvolvimento económico e social das nossas populações. Por fim deixo uma palavra especial para os autarcas em fim de carreira cujas experiências não devem ser desperdiçadas. Apesar de jovem acredito que os autarcas em fim de carreira não devem desaparecer do mapa, como muitos querem, mas sim devem manter um relacionamento institucional, sem remuneração, num qualquer lugar devidamente enquadrado num qualquer protocolo autárquico. Pedro Vidal